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ARQUITETURA MILITAR


Portugal sempre teve muita preocupação com a defesa militar da vila de Paraty. Primeiro pelo fato do ouro das minas passar por esse porto e, segundo, porque os portugueses sabiam que Paraty era um dos poucos pontos do litoral brasileiro com fácil acesso para o interior da então colônia e por essa razão poderia ser invadida pelos franceses, holandeses ou espanhóis em busca do ouro.

Para defender a costa brasileira havia dez regimentos de infantaria. Cada regimento atendia a varias cidades. Entretanto, o 10o Regimento era destinado exclusivamente à Paraty. Além dessa unidade, havia na vila os Capitães de Forasteiros, Capitão da Barra e a Companhia dos Homens Pardos.

Em 1714 desembarca em Paraty o engenheiro-militar Brigadeiro João Massé, construtor de vários fortes pelo Brasil e considerado o melhor nessa área.

Para defender de ataques inimigos a vila contava com seis fortificações e duas guardas. Enquanto os fortes serviam para defender a vila de ataques de navios estrangeiros, as guardas eram pontos de controle avançados para evitar o contrabando de metais preciosos e para evitar, em caso de ataque estrangeiro, a circulação do inimigo por terra. Os fortes tinham ordem de permitir a aproximação da vila apenas de lanchas - pequenas embarcações auxiliares dos navios - e, mesmo assim, no máximo duas ou três ao mesmo tempo. Além do permitido, deveriam ser afundados pelos canhões.

Os fortes, como ponto de defesa, eram os primeiros alvos de um ataque. Prevendo a possibilidade de ser sitiado pelo inimigo, havia dentro do forte local para os soldados dormir e estoque suficiente de água, comida e munição.

Entre 1828 e 1831 as fortificações foram desarmadas e a ação do tempo destruiu as edificações, restando apenas a do Forte Defensor Perpétuo. Das demais sobraram apenas ruínas e canhões que mostram onde eram suas localizações.

Canhão de fabricação inglesa, localizado Forte Defensor Perpétuo, com as iniciais de George Rex e o nº 3 na parte superior do G, isto é, do tempo do Rei George 3º da Inglaterra (Foto: Sérgio Pinheiro)


Talvez pelo seu poderoso sistema de fortificação que inibia tentativas de ataque, talvez pelo fato de tão raso ser o seu porto que os navios inimigos não conseguiriam chegar a uma distância suficientemente perto para as balas de canhões atingir a vila, houve apenas dois ataque de piratas (ou tentativa de) na vila. A primeira ocorreu no fim do século XVII, como mostra um ofício datado de 1686 “... que visto andar o inimigo nesta costa e se temer saltear esta Vila de Paratihi, como fez em Ilha Grande e intentou fazer a essa se valorosamente, os poucos moradores que nela se achavam, não tivessem feito frente a eles ...”. O segundo ataque ocorreu em 1710 quando o corsário francês João Batista Duclerc tentou desembarcar nesse porto. Não conseguindo desembarcar em Paraty, Duclerc aportou na região de Angra dos Reis e seguiu por terra em direção ao Rio de Janeiro, numa tentativa de dominar aquela cidade pela retaguarda. O pirata acabou sendo derrotado e aprisionado.

Por causa do eficiente sistema de defesa da vila, os navios piratas se escondiam ou na Ilha Grande ou em Trindade, local onde podiam abastecer seus navios com água e comida e onde aguardavam os barcos carregados com ouro vindos de Paraty para então saqueá-los.

Os monumentos militares de interesse turístico são o forte Defensor Perpétuo, o Quartel da Patitiba e o forte de Iticupê. A seguir uma descrição dos fortes.




FORTE DEFENSOR PERPÉTUO

O forte Defensor Perpétuo está localizado no morro ao norte e próximo à cidade (quinze minutos de caminhada a partir do centro histórico). Foi construído em 1703, contendo apenas uma trincheira (muro de pedras com aproximadamente um metro e meio de altura), um reduto (abrigo para os soldados) e quatro canhões. Em 1793 construiu-se nele a Casa da Pólvora e celas, ganhando novos armamentos, ficando assim com sete canhões de calibres de 12 e 18 libras (refere-se ao peso dos projéteis que podia ser uma bola de metal ou de pedra e eram impulsionados pelos gases da explosão da pólvora). Em 1822 o forte foi reformado e passou a ser chamado de Defensor Perpétuo, em homenagem a D. Pedro I, proclamado nesse ano imperador do Brasil.

O Forte Defensor Perpétuo está bem conservado e possui belíssima vista para a baía de Paraty. Espalhados pelo jardim, há oito canhões de diferentes calibres e enormes tachos de ferro onde se cozinhava óleo de baleia, utilizado para construção e iluminação.

A Casa da Pólvora é uma construção à parte, medindo aproximadamente nove metros quadrados e era o local onde ficava armazenada a pólvora. Para não explodir, caso fosse atingida por balas de canhões inimigos, suas paredes possuem quase um metro de espessura, além de estar cercada por alto muro com meio metro de espessura. No local onde era a cadeia do forte e o alojamento dos soldados está hoje o Centro de Artes e Tradições Populares de Paraty, um museu com exposição permanente de artesanato caiçara que procura mostrar aspectos importantes da vida do paratiense.

Vista Aérea do Forte Defensor Perpétuo. Foto: Cleber Tenorio (Panoramio)





QUARTEL DA FORTALEZA DA PATITIBA

Situado ao lado da Igreja Santa Rita, sua construção data de 1703. Esse prédio era um dos elementos do que uma vez foi a Fortaleza da Patitiba e era utilizado como depósito de armas e munição, bem como alojamento das tropas que defendiam a foz do rio Patitiba.

Com a sua desativação, o prédio entrou em ruína. No fim do século XIX o local foi reformado e utilizado até o ano de 1980 como cadeia pública. Seguindo o padrão da arquitetura militar da época, possuía planta quadrangular com porta central. Na parte interna há seis compartimentos simétricos, sendo quatro celas (duas para brancos e duas para negros) com gradis de ferro em todos os vãos e, capacidade para até dez presos em cada, além de um repartimento para a guarda e um para o carcereiro.

Atualmente abriga a biblioteca Fábio Vilaboim, possuindo em seu acervo vários livros e documentos sobre a história de Paraty. Também abriga a Pinacoteca Marino Gouveia com exposição permanente de obras de arte. Os canhões da Fortaleza da Patitiba se encontram na Praça do Porto, próxima ao cais da cidade.

Quartel da Patitiba. (Foto: André Luiz)





FORTALEZA DE ITICUPÊ

Situada na ponta do morro de Iticupê, possui trincheira de pedra e três canhões. Pelas ruínas percebe-se que um quarto canhão foi retirado do local. O lugar possui uma bonita vista da baía de Paraty. Acesso por mar, desembarcando numa pequena praia.

Canhão da Fortaleza de Iticupê.






FORTALEZA DA ILHA DA BEXIGA

Montada sobre um platô no alto da ilha, possuía seis canhões. Numa ilustração, feita em 1827 por Jean Baptiste Debret, percebe-se nessa fortaleza uma haste para bandeira e uma edificação com uma larga porta e quatro janelas, que deveria ser usada como alojamento e depósito de munição. Atualmente os canhões estão amontoados sobre o chão e não existe ruína que indique onde eram suas posições.





FORTALEZA DA PONTA GROSSA

Num lugar mais elevado da Ponta Grossa encontram-se abandonados três canhões que parecem estar em seu local original. Uma pequena casa foi construída junto aos canhões. Sem interesse turístico.





FORTALEZA DA ILHA DOS MEROS

Apesar de atualmente não haver nenhum canhão ou ruína que demonstre a existência de um forte, pescadores mais velhos lembram-se de haver dois canhões nessa ilha na década de 1970.





GUARDA E REGISTRO DO BOQUEIRÃO DO INFERNO

Em 1703 foi montada no início da serra uma Casa de Registro para controlar o ouro que vinha das minas. Havia junto à casa de registro uma guarda composta por poucos soldados, necessários para se fazer cumprir o pagamento do imposto sobre o ouro. Um trabalho arqueológico recente encontrou dentro do Sítio Histórico e Ecológico Caminho do Ouro as ruínas da Casa de Registro. Por volta de 1775 essa guarda mudou-se para um local mais perto da vila, conhecida como Cachoeira (atual Penha) onde funcionou até início da década de 1840).





GUARDA DO CURRALINHO

No caminho que ligava Paraty à Ubatuba, passando pelo atual trilha Corisco-Picinguaba, havia uma guarda para evitar o contrabando do ouro e a fuga de escravos que eram desembarcados em Paraty-Mirim.